19.12.11

Bakunin e o Anarquismo


Dentre as tantas doutrinas políticas existentes no mundo, desde as que sistematicamente vigoram, às que nunca foram praticadas ou as que já o foram e hoje adormecem em teorias, o Anarquismo talvez seja a mais incompreendida e, por consequência, a mais deturpada de todas elas.
Anarquia há muito já virou sinônimo de baderna, caos e desordem, talvez até por causa de suas proposições sociais, muitas delas tidas como violentas e terroristas (de fato algumas, como forma de prática revolucionária realmente são mais irascíveis).
Etimologicamente, a palavra Anarquia, originária do grego Anarke, significa “não governo” (An = não; Arke = governo) ou, “sem autoridade” e, toda sua base ideológica hoje constituída, deriva de antigas e contemporâneas doutrinas.  Já num longínquo passado, os filósofos chineses Lao Tse, Mo Ti, Chuang Tse e Hsun Tse, defendiam a abolição do Estado e de qualquer outra forma de dominação; no século XIV o inglês Thomas Morus defendia, no livro “Utopia”, a tese de que a propriedade privada era a principal causa das desigualdades sociais e, com o surgimento do Socialismo utópico (ou Romântico) defendido pelo inglês Robert Owen e os franceses Charles Fourrier e Sain-Simon no século XIX, o Anarquismo assumiu definitivamente o caráter de movimento político, tendo como seus principais precursores o francês Pierre-Joseph Proudhon (1809 – 1865) e o russo Bakunin, do qual agora falaremos.
Mikhail Aleksandrovich Bakunin nasceu no dia 30 de maio de 1.814, em Premukhino (Premujino), entre Moscou e São Petersburgo, uma província de Tver; o terceiro dos filhos do casal Alexandre Michajlovic Bakunin e Varvara Aleksandrovna Muraeiv.
De família nobre russa, Bakunin foi educado por professoras francesas e alemãs em sua própria casa até os 14 anos de idade, tendo aprendido, além de vários idiomas, a tocar violino.
Ainda em 1.828, Bakunin mudou-se para São Petersburgo e, no ano seguinte ingressou na carreira militar, entrando para a Escola de Cadetes da Artilharia, tendo recebido em 1.833 o posto de Alferes.
Por não demonstrar o interesse militar que seus superiores requeriam, em 1.834 Bakunin foi enviado para uma brigada na fronteira polonesa, como forma de punição. No ano seguinte, por desertar de uma missão militar no Tver, Bakunin foi expulso do exército.
Em março daquele mesmo ano, viajou para Moscou a fim de ampliar seus conhecimentos filosóficos (Kant, Fichte e Hegel na época eram seus filósofos prediletos) e, em 1.841, começou a estudar Filosofia na Universidade de Berlim. No ano seguinte, resolveu abandonar os estudos e partir para Zurique, na Suíça. É que suas aspirações haviam se voltado mais para os interesses político-ideológicos e, já com certa experiência em jornalismo – por  haver participado anteriormente dos jornais Telescópio e Observador, ambos de Moscou – Bakunin também foi intencionado a trabalhar para algum jornal suíço.
Em 1.843, atraído por idéias libertárias, começou a escrever sobre comunismo no jornal O Republicano Suíço e, em 1.844, depois de sair de Zurique e passar por Bruxelas, Bakunin passou a residir em Paris (França), onde conheceu o anarquista Proudhon (com quem manteria uma grande amizade), e também o principal fundador do Socialismo Científico (ou simplesmente Comunismo), Karl Marx.
Naquele mesmo ano, além de perder todos os seus títulos nobiliárquicos e militares, Bakunin foi condenado (à revelia) pelo governo russo, ao exílio.  Com suas campanhas revolucionárias ele começou a chamar a atenção das autoridades parisienses que, pressionadas pelo governo russo, decidiram em 1.847, expulsar Bakunin do território francês, de onde ele saiu em dezembro; voltou então para Bruxelas, dando continuidade à sua militância.  Após o triunfo da Revolução em Paris, dado em 24 de fevereiro de 1.848, Bakunin regressou à cidade. Mesmo sabendo que era procurado pela polícia prussiana, ele não abandonou sua luta libertária e, no ano seguinte, já em Dresden, participou assiduamente do levante popular que culminou com a invasão do Exército Prussiano.  Depois de fugir para Chemnitz, Bakunin foi preso no dia 9 de maio de 1.849 e transferido em agosto para a fortaleza de Königstein. 

Em janeiro de 1.850 ele foi condenado à pena de morte, porém em junho a pena foi comutada para prisão perpétua. Após dezenas de tortuosos interrogatórios e estadias nos presídios de Olmütz, Pedro e Paulo (São Petersburgo) – onde em 1.852 sofreu de hemorróidas e escoburto, causando-lhe a perda dos dentes – e Schulusselberg, em fevereiro de 1.857 foi lhe concedida a escolha de continuar preso ou ser exilado na Sibéria.
Bakunin saiu da prisão e se instalou em Omsk, capital da Sibéria ocidental, em abril. Em 1.858, aos 44 anos, casou-se com Antonia Kwiatkowski, uma jovem de 18 anos e, nos anos seguintes, a princípio meio que na esquiva, Bakunin continuou se empenhando na propaganda anarquista, tendo divulgado suas fundamentações em diversas localidades do mundo (Japão, São Francisco/Califórnia, Nova Iorque, Londres, Paris, Suécia, Genebra, Berna, Turim...).
Em junho de 1.868 Bakunin passou a fazer parte da Primeira Internacional (fundada em 1.864, em Londres), - onde entrou em acirradas divergências com Karl Marx - e atuou ativamente até ser expulso em 1.872.
Sua última ação revolucionária foi em 1.874, aos 60 anos, quando então participou de uma insurreição em Bolonha, à qual fracassou. Com a ajuda de amigos, fugiu para a Suíça (barbeado e disfarçado de padre) e se instalou em Berna, já com a saúde bastante debilitada; Bakunin sofria de asma, astenia cardíaca, amnésia, inchaço nas pernas, além de outras complicações.
Bakunin morreu ao meio-dia do dia 1.o de julho de 1.876, no hospital onde estava internado, em Berna, Suíça.
Suas principais obras literárias foram: “Deus e o Estado”, “Federalismo, Socialismo e Antiteologismo”, “O Estado e a Anarquia” e “Escritos contra Marx”.


Texto: Renato Curse          maio de 2.001

(Esse texto foi publicado na edição # 30 do Informativo Mix Cultural, de 02 de junho de 2.001)



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