1.5.12

A verdade sobre o Dia do Trabalho


Difícil compreender porque só depois de muito sangue ser derramado e muitas vidas serem injusta e brutalmente tiradas para, só assim, à custo do aparecimento de tantos mártires ao longo da história, termos alguns direitos – especialmente os trabalhistas – enfim alcançados.  Desde os tempos mais remotos, pagarem-se com a própria vida os que clamaram contra a servidão exagerada e a escravidão – declarada ou enrustida por falsas leis, falsas idéias, falsos dogmas – ousando, assim, enfrentar autoridades, algozes e todas as imposições que viessem a limitar os reais direitos humanos, a dignidade à vida, à família, às opções, ao trabalho...
Por que afinal, fazer o sangue jorrar para só então ceder às reivindicações? Você sabe como surgiu o Dia do Trabalho (ou Dia do Trabalhador)?  Pois foi exatamente assim: em troca do sacrifício de vidas humanas!
Até o século XIX, trabalhava-se de 14 a 16 horas por dia em muitos países do mundo e isso, de certa forma, era encarado com a mais absoluta normalidade por parte da classe patronal e da governamental, exceto, claro, pelos que cumpriam essa longa jornada. Proletários do mundo todo, questionadores das injustas imposições trabalhistas, começaram a formar sindicatos, realizar congressos e reuniões para melhor se organizarem, buscando assim meios que pudessem a vir a reduzir a jornada trabalhista, bem como asseguração de melhores direitos.
Nos Estados Unidos, durante o 4.o Congresso dos Trabalhadores, em outubro de 1.884, os obreiros concluíram que a melhor e mais hábil maneira de forçar a redução das horas de trabalho, seria através de uma greve generalizada, uma greve geral.
Após outras reuniões e ampla campanha, os trabalhadores decidiram marcar a greve geral para o dia 1.o de maio de 1.886, em Chicago. A principal reivindicação era a redução das 14 horas de trabalho para 8 horas diárias, além de melhores condições e salários, o fim do trabalho infantil, o fim do trabalho noturno para mulheres, entre outras.
Mais de 350 mil pessoas aderiram à greve geral naquele 1.o de maio (um sábado), o que provocou enorme alarde nos patrões e nos governos. Comícios para grandes multidões eram realizados nas portas das fábricas e o principal lema bradado nestes comícios e nas passeatas era: “Oito horas de trabalho, oito horas de repouso, oito horas de educação!” 
Nos dias 2 e 3 de maio, apesar da cruenta repressão policial, durante um comício na porta da indústria madeireira Maccornick, na Praça Haymarket (Chicago), uma bomba explodiu entre os trabalhadores, matando alguns e ferindo aproximadamente 100 deles. Foi o pretexto que a polícia norte-americana esperava para reprimir com força bruta, à cavalo, a manifestação dos trabalhadores. Muitos foram pisoteados pela cavalaria e, na mesma noite, sete anarquistas acusados de encabeçar a greve e o atentado à bomba (a eles mesmos?!), foram presos: Louis Lingg, Adolph Fischer, George Engel, August Spies, Michael Schwab, Samuel Fielden e Oscar W. Neebe.
À partir daí, teve início uma grande conspiração para que todos os envolvidos fossem severamente punidos. Os conspiradores principais foram: o capitão John Bonfield, os civis Setinger, Jassen e Shea, toda a corporação policial, a propaganda anti-grevista do Chicago Times e toda a classe patronal, os quais acabaram por influenciar a decisão dos 979 jurados, do promotor público Grinnell, até a do juiz Gary.
Em pleno julgamento, Albert Parsons, um dos anarquistas que na noite de 4 de maio conseguira fugir da perseguição policial, entregou-se espontaneamente dizendo: “Se é necessário subir também ao cadafalso pelos direitos dos trabalhadores, pela causa da liberdade e para melhorar a sorte dos oprimidos, aqui estou!”.  Por certo, Parsons já pressentia o infeliz desfecho judicial que o condenou, juntamente com Lingg, Fischer, Engel e Spies ao enforcamento; Schwab e Fielden foram condenados à prisão perpétua e Neebe a 15 anos de cárcere privado.
O enforcamento público dos cinco libertários foi às 11 horas e 50 minutos do dia 11 de novembro de 1.887. Naquele dia, uma sexta-feira, antes de ir à forca, Albert Parsons disse: “Que a voz do povo possa ser ouvida!” e Spies: 
“Não tardará o dia em que nosso silêncio será mais eloquente do que as vozes que acabais de sufocar!”.
Em novembro de 1.888, durante o Congresso Sindical Internacional de Londres, o dia 1.o de maio foi declarado o “Dia da Luta do Trabalhador”, um dia de protestos. Porém, em junho de 1.889, ocasião da fundação da II Internacional, em Paris, a data ganhou caráter de Festa do Trabalho (Festejar o quê? A morte daqueles que lutaram por nossos direitos?).
Em 25 de junho de 1.893, Johan P. Altgeld, governador do Estado de Illinois, ordenou finalmente a libertação de Schwab, Fielden e Neebe, concluindo que eles e todos os demais envolvidos no protesto de 1.o de maio eram inocentes.


Texto: Renato Curse          abril de 2.001


(Texto publicado na edição # 25 do Informativo Mix Cultural, lançado em 28 de abril de 2.001)





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