7.3.13

Clara Zetkin e o 8 de março


Clara Zetkin

Ativista socialista e feminista nascida no dia 5 de julho de 1857, na cidade de Wiederau, na província da Saxônia, que propôs (1910) que o dia 8 de março fosse declarado como Dia Internacional da Mulher.
Nascida no início da crise do regime contra-revolucionário que se seguiu à Revolução Alemã (1848), no seio de uma família de classe média, tornou-se uma revolucionária profissional desde a mais tenra juventude, e assim permaneceu até o final dos seus dias.
Ainda estudante na Faculdade de Magistério para Mulheres da cidade de Leipzig, manteve seus primeiros contatos com o Partido Social-democrata Alemão de Wilhelm Liebknecht e August Bebel, mas sua adesão 'a causa operária e para o marxismo deu-se através da influência de seu primeiro marido, um russo, Ossip Zetkin, a quem conheceu através das suas relações com revolucionários russos.
Por causa de suas atividades socialistas na Alemanha unificada sob o governo de Bismarck, foi forçada ao exílio por aproximadamente 10 anos fora do país, vivendo na Suíça e em Paris, na França, onde entrou em contato com as principais lideranças do socialismo internacional. Durante este período colaborou ativamente com o órgão do partido, Sozialdemokrat. Participou do Congresso de Fundação da II Internacional em Paris (1889) onde apresentou um relatório sobre o trabalho socialista entre as mulheres e foi eleita secretária do setor feminino da organização operária internacionalista.
Após o Congresso, voltou à Alemanha e fundou (1892) o jornal Gleichheit, órgão defensor da mulher operária, onde ficou como sua editora-chefe. Tomou a iniciativa de realizar o I Congresso de Mulheres Socialistas (1907) que impulsionou a participação política das mulheres de diversos países na luta revolucionária e definiu um programa de luta pelas reivindicações da mulher operária.
Durante o II Congresso de Mulheres Socialistas (1910) foi aprovada sua proposta pela realização de um dia de luta internacional da mulher pelas reivindicações trabalhistas das operárias e defesa dos direitos políticos das mulheres. Por ter organizado, em Berna, na Suíçca, país neutro, em plena guerra, um congresso internacional de mulheres contra a guerra (1915).
Por causa desta ousadia foi presa e expulsa do partido socialista alemão e também perdeu o posto de editora-chefe do Gleichheit (1916). Após sua fundação (1919) entrou no partido comunista alemão, mas com a subida de Hitler, refugiou-se em Moscou (1933) onde morreu logo depois, no dia 20 de junho.
Seu nome nome ficou ligado ao surgimento do movimento de luta das mulheres, em particular das mulheres operárias, como movimento de massas em escala internacional nos principais países capitalistas do mundo.

NOTA: O Dia Internacional da Mulher é comemorado em todo o mundo no dia 8 de março, data em que 129 mulheres da fábrica de tecidos Cotton, em Nova York (EUA), morreram carbonizadas depois da polícia reprimir a greve ateando fogo no prédio (1857). 
As grevistas reivindicavam o direito da jornada de trabalho de dez horas em contraposição às 15 horas diárias. O movimento para uma vida mais digna para a mulher foi iniciado durante a Revolução Francesa (1789) quando Olympe de Gouges (1748-1793) publicou textos sobre os direitos da mulher, afirmando que se elas poderiam ser levadas ao cadafalso, também tinham o direito de subir na tribuna política. Por suas declarações, Olympe foi julgada, condenada à morte e guilhotinada (1793).


Fonte: NetSaber 



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Clara Zetkin e o 8 de Março
Texto: Isabel Cruz

Se existe fato que celebrizou internacionalmente Clara Zetkin (1857-1933) foi sem dúvida a proposta de criação de um Dia Internacional da Mulher, apresentada em 1910, na 2.ª Conferência Internacional de Mulheres.
Mas a acção política desta revolucionária alemã, que se tornou uma prestigiada e influente dirigente do movimento comunista alemão, da II Internacional e da Internacional Comunista, foi bem mais vasta e rica em defesa dos direitos das mulheres e pela sua emancipação social.

No plano teórico, Clara Zetkin assimilou e divulgou a matriz política e ideológica legada por Marx, Engels e por Lênin, e o conjunto dos seus escritos integra, amplia e enriquece o patrimônio do marxismo-leninismo quanto  à situação da mulher na sociedade, sobre a situação da mulher no capitalismo e sobre a revolução socialista como resposta à aspiração de emancipação social da mulher. É por isso que, muito justamente, o conjunto das suas reflexões teóricas deve ser destacado como parte integrante do acervo teórico do marxismo-leninismo sobre a situação da mulher na sociedade, legado de contundente atualidade.




Razões históricas de uma data  

A proposta de Clara Zetkin de criação de um Dia Internacional da Mulher,  aprovada em 1910, estipulava uma ação internacional comum pela emancipação das proletárias e pelo sufrágio universal: "Em acordo com as organizações políticas e sindicais do proletariado nos seus respectivos países, as mulheres socialistas de todos os países organizarão todos os anos um dia das mulheres que, em primeiro lugar, será consagrado à propaganda a favor do voto das mulheres (…). Este dia das mulheres deve ter carácter internacional e ser cuidadosamente preparado".

Esta proposta de Clara Zetkin não foi um ato isolado. Correspondeu à necessidade de dar um forte impulso à luta organizada das operárias, numa época em que a entrada massiva das mulheres no trabalho fabril e o desenvolvimento do movimento comunista conduziram à intensificação da luta das mulheres por melhores condições de trabalho, melhores salários e por direitos sociais e políticos. Consciente da importância decisiva da participação das mulheres trabalhadoras na transformação da sociedade, Clara Zetkin assumiu um papel notável na dinamização e na luta organizada das trabalhadoras e na incorporação das reivindicações específicas das mulheres no movimento operário e comunista.

A data do primeiro Dia Internacional da Mulher não foi uma escolha ao acaso. A indicação do mês de Março está associada a dois acontecimentos de importância simbólica para o proletariado: a revolução alemã (Março, 1848) e a Comuna de Paris (Março, 1871), acontecimento de grande alcance histórico que deu forte impulso à luta do proletariado em todo o mundo.

A 19 de Março de 1911, o sucesso da primeira celebração foi considerável – a maior manifestação do movimento pela emancipação das mulheres, com mais de um milhão de mulheres nas ruas das cidades da Alemanha, Suíça, Áustria e Dinamarca. Só em Berlim foram realizadas 42 reuniões em simultâneo e centenas de outras em toda a Alemanha. No final das reuniões, as mulheres desfilavam pelas ruas empunhando cartazes. Na Áustria, mais de 30 000 mulheres manifestaram-se nas ruas de Viena –, como relatou Clara Zetkin no Die Gleichheit.

Em 1912, as manifestações na Alemanha foram menos numerosas mas mesmo assim impressionantes: 1200 mulheres reuniram-se em Essen, 1000 em Leipzig e em Erfurt. Na maior parte das vezes, as mulheres desfilavam, disciplinadas e pacíficas, sem que a polícia interviesse. Outras vezes, como em Dusseldorf e em Berlim, a polícia espancava e prendia.

Na Suécia, realizaram-se enormes manifestações de mulheres em 1912 e 1913. Em 1913, apesar da repressão tsarista, as revolucionárias russas celebram o dia em reuniões clandestinas em algumas cidades: Moscovo, Kiev, S. Petersburgo, entre outras. Em 1914, em Paris, mais de 20 000 mulheres estiveram presentes na primeira celebração francesa.

É só a partir de 1917 que se estabelece a data de 8 de Março para as comemorações do Dia Internacional da Mulher. No dia 23 de Fevereiro do calendário gregoriano (8 de Março no calendário juliano), as mulheres russas manifestam-se em S. Petersburgo, exigindo pão, o regresso dos maridos enviados para a frente da guerra, a Paz e a República. A greve estende-se rapidamente a todo o proletariado. Em poucos dias a greve de massas transforma-se numa insurreição e ao fim de cinco dias cai o império russo.

O Dia Internacional da Mulher Trabalhadora tornou-se um momento privilegiado de agitação entre as proletárias politicamente menos conscientes. Um dia que reforçava a solidariedade internacional entre as trabalhadoras na luta por objetivos comuns e uma demonstração da sua força organizada. Um contributo importante para o seu envolvimento político, um dia de militância das mulheres trabalhadoras que ajuda a aumentar a consciência e a organização das mulheres proletárias.





Organizar a luta  
Transformar a condição social das trabalhadoras 

De facto, consciente da importância decisiva de aumentar a sua consciência social e política, fortalecendo assim a luta do conjunto do movimento operário e revolucionário, Clara Zetkin dedicou a sua vida à dinamização da organização entre as trabalhadoras na Alemanha e em diversos países.

Concentrou muita da sua atividade na criação da organização das trabalhadoras, destacando o papel da sua participação nos sindicatos, e na aprovação de orientações claras para a luta organizada das mulheres no seio dos partidos comunistas nos diversos países.

Para Clara Zetkin «pretender transformar a condição das mulheres sem abolir o modo de produção capitalista conduziria as trabalhadoras a um beco sem saída, observando que as “reformas” que o próprio sistema levava a cabo serviam para atenuar um pouco a vida das mulheres mas não daria êxito ao objectivo de transformação da condição social das mulheres das classes trabalhadoras, nem permitiriam efetivar o conjunto dos direitos econômicos, sociais, políticos e culturais».

Clara Zetkin advertiu que a igualdade jurídica e política (direitos pelos quais se bateu!) não seriam condição suficiente (ainda que necessária) para transformar a situação das mulheres das classes trabalhadoras: «A emancipação da mulher, como a de todo o gênero humano, só se tornará realidade no dia em que o trabalho se emancipar do capital. Só na sociedade socialista as mulheres, como os trabalhadores, tomarão posse plena dos seus direitos».





A luta pelo direito ao voto

A maior parte das referências historiográficas às lutas pelo direito ao voto das mulheres atribui um lugar de destaque às sufragistas, ou a movimentos de mulheres da classe média, ocultando a posição dos movimentos de mulheres operárias e socialistas, afirmando, por exemplo, que estes consideravam os direitos políticos das mulheres subordinados ao avanço econômico dos homens da classe trabalhadora. Mas, na verdade, antes do final do século XIX, o direito das mulheres ao voto integrou os programas dos partidos operários europeus como exigência do sufrágio universal para os dois sexos.

Na Alemanha, como em outros países da Europa, a luta pelo direito ao voto não foi liderada pelas mulheres da classe média, ou pelas suas organizações, mas pelas mulheres das organizações proletárias, cujo movimento mais impressionante foi sem dúvida o das mulheres do Partido Social Democrata da Alemanha (SPD), lideradas por Clara Zetkin.

Tais factos, apesar de largamente documentados, são deliberadamente «esquecidos» por algumas historiadoras, ocultando o papel de Clara Zetkin e dos partidos operários e revolucionários nesta luta.

Clara Zetkin defendia que a luta das proletárias pelo sufrágio direto e universal intensificava a luta geral do proletariado pela sua libertação e era imprescindível para a mobilização e educação política das proletárias. Ao contrário das burguesas, Clara Zetkin não considerava o voto das mulheres como o «objectivo final», porque a concessão do direito ao voto não bastava «para suprimir o antagonismo de classe entre exploradores e explorados».

Como o referiu em 1907: «O direito ao voto ajuda as mulheres da burguesia a derrubar as barreiras que, sob a forma de privilégios masculinos, limitam as suas possibilidades de acesso à educação e à vida profissional. E arma as mulheres proletárias na luta que levam a cabo contra a exploração e a dominação de classe para conseguirem ser reconhecidas como seres humanos de corpo inteiro.»

Na Conferência Internacional de Mulheres, em 1910, foi aprovada nova resolução sobre o direito ao voto para as mulheres: «… o sufrágio universal, atribuído a todas as maiores de idade e que não dependa da propriedade, nem do imposto, nem do grau de cultura, nem de outras condições que excluam os membros da classe operária do gozo deste direito».

As divergências existentes entre os movimentos de mulheres burguesas e proletárias reflectem que também a luta pelo direito ao voto foi dominada pelo antagonismo de classe que decorre dos interesses próprios das mulheres de cada classe social. De facto, o voto das mulheres das classes dominantes significava apenas o fim dos privilégios dos homens da mesma classe e por isso não alterava qualquer relação de poder entre as classes sociais.

Dar a conhecer a vida e a obra desta comunista, que tem sido ocultada e esquecida na(s) História(s) das mulheres e dos Feminismos, foi a razão que levou à publicação, em 2007, do livro Clara Zetkin e a luta das mulheres. Uma atitude inconformada. Um percurso coerente, das Edições «Avante!», na passagem dos 150 anos do seu nascimento.


* Texto extraído da Revista portuguesa "O Militante", edição # 293 de março/abril de 2.008.

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"Às criminosas destruições dos imperialistas deve se opor a vontade granítica das massas amantes da paz... O Congresso Anti-Guerreiro unifica muitas centenas de seus representantes, homens e mulheres, fortalece as suas ligações com os trabalhadores de todas as profissões e países que anseiam pela paz e chama à luta decidida novas massas que ainda não despertaram e ainda vacilam".



"A luta contra a guerra imperialista diz respeito a todos nós, pois trata-se da luta pela grande causa de nossa libertação. Essa luta somente poderá conquistar a vitória numa frente única de aço, nacional e internacional, de todos os trabalhadores".
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