4.4.13

Cazuza: um símbolo da luta contra a Aids



Numa época em que falar publicamente sobre a Aids ainda escandalizava e polemizava, qualquer artista que viesse a admitir ser portador da assustadora doença, ainda que sem nenhuma noção do que pudesse ocorrer depois com a carreira, deveria ter, no mínimo, muita coragem para levar adiante a afirmação. Para derrubar os tabus e desmistificar os preconceitos que acercavam o assunto, faltava alguém aqui no Brasil, ligado à mídia ou ao meio artístico que, assumindo a doença, pudesse expandir com mais intensidade as campanhas preventivas e, ao mesmo tempo, findar ou pelo menos diminuir a discriminação dirigida aos portadores da aids.

O primeiro artista brasileiro a fazer esta então chocante e triste afirmação foi o cantor e compositor Cazuza.
Agenor de Miranda Araújo Neto, filho do presidente da Gravadora Som Livre, João Araújo e de Lucinha Araújo, nasceu no dia 4 de abril de 1.958, no Rio de Janeiro. Durante o parto, Lucinha sofreu uma lesão no canal cervical, o que tornava impossível uma nova gravidez (o casal pretendia ter vários filhos), sendo Cazuza o primeiro e único filho.
A ele, os pais – especialmente a mãe – dedicavam requintados cuidados e educação, tratando-o como um verdadeiro príncipe. Em 1.963, aos 5 anos, Cazuza foi matriculado (pela mãe) no Colégio de padres jesuítas Santo Inácio. No Colégio, entre uma série de normas e restrições, não era admitido que algum aluno repetisse de ano; isto acarretaria numa expulsão e, não sendo Cazuza um aluno dos mais aplicados, ele acabou sendo reprovado na 4.a série ginasial. Tinha início então, a partir daí, a personalidade problemática e rebelde destacada no menino Cazuza que, posteriormente, matriculado em outros colégios, teria sérias dificuldades em se adaptar a todos eles, tanto na infância quanto na adolescência. Mas o estopim de suas atitudes rebeldes viria em 1.973 quando então com 15 anos de idade foi expulso de mais um colégio, só que desta vez por ter sido flagrado fumando maconha no corredor. Por insistência da mãe, ele acabou concluindo o ginasial num curso supletivo.
Com 17 anos foi conhecer Paris e aos 18 – época em que disse aos pais não estar ainda definido sexualmente – ele foi a Londres destinado a fazer um curso de arte dramática (de 3 meses), o que acabou não acontecendo já que, distante e financiado pelos pais, preferiu se aventurar na boemia das noites inglesas.
Em 1.978, aos 20 anos, Cazuza começou a trabalhar como jornalista na gravadora do pai e, a fim de enriquecer seu currículo (e se divertir), no ano seguinte viajou para São Francisco, na Califórnia, onde começou um curso de fotografia. De volta ao Brasil e já tendo assumido uma postura bissexual, ele iniciou um romance com o cantor Ney Matogrosso e com Sérgio Dias – relação que durou 4 anos.
Apesar de ter crescido em contato com diversas personalidades musicais (como Elis Regina, Caetano Veloso, Gilberto Gil...) que frequentemente apareciam em sua casa, Cazuza só foi adentrar no cenário musical a partir de 1.981. 
Em outubro daquele ano, ocasião em que trabalhava como fotógrafo na Gravadora RGE, indicado pelo cantor Léo Jaime, Cazuza recebeu por telefone o convite do baterista Guto Goffi para integrar uma banda de rock formada por (além dele), Maurício (teclado), Dé (baixo) e Roberto Frejat (guitarra). Ao se conhecerem pessoalmente estava consolidada a banda Barão Vermelho (na ativa até hoje).  Mesmo depois de alguns ensaios, apresentações e composições próprias, a banda ainda não havia conseguido convencer o pai de Cazuza para que pudessem lançar o primeiro disco. 
Foi quando o jornalista e produtor musical Ezequiel Neves entrou para resolver a pendência; ao ouvir a fita-demo da banda ele próprio pôs fim à resistência de João Araújo e o primeiro disco “Barão Vermelho” foi finalmente lançado em maio de 1.982. Depois vieram “Barão Vermelho 2 (1983) e “Maior Abandonado” (1984), o último com os vocais de Cazuza que depois de se envolver em atritos com os demais colegas (especialmente Frejat), resolveu sair da banda em julho de 1.985, partindo para a carreira solo. 
Em novembro do mesmo ano ele lançou “Exagerado”, seu primeiro disco solo e em maio de 1.987, ano em que lançou o segundo disco (“Só se for a dois”), Cazuza descobriu que era portador do vírus HIV, na época uma doença bastante incompreendida, que levou-o a buscar tratamento em Boston, nos Estados Unidos.
Em 1.988 ele lançou “Ideologia” e em setembro do mesmo ano, em Nova Iorque, Cazuza confirmou ao jornalista Zeca Camargo que era portador da aids. Depois disso, até mesmo por ser o primeiro artista a admitir a enfermidade, ele passou a ser perseguido e fotografado onde quer que fosse. No mês seguinte ele gravaria o lp ao vivo “O tempo não para”, com show realizado no Canecão (RJ) e transmitido pela Rede Globo.

Entre abril e maio de 1.989, já muito debilitado, Cazuza gravou seu último disco, “Burguesia” (algumas canções ele gravou deitado, interrompido algumas vezes pelas constantes tosses) e em outubro foi mais uma vez à Boston, onde permaneceu internado até março de 1.990. Ao retornar para o Brasil, Cazuza trancou-se no apartamento dos pais no Rio de Janeiro e morreu na madrugada do dia 7 de julho de 1.990, aos 32 anos, pesando apenas 28 quilos (antes de dormir, Cazuza teria pedido um cigarro e um milk-shake).

Texto: Renato Curse                              julho de 2.001

Este texto foi publicado na edição # 35 do Informativo semanal Mix Cultural de 07 de julho de 2.001.

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