5.11.16

5 de novembro de 1933: A história de uma goleada


Dia 5 de novembro de 1933...
Um dia inesquecível na história do Palestra Itália / Palmeiras!
O dia em que o alviverde aplicou a maior goleada já sofrida pelo Corinthians até os dias de hoje!
A maior goleada do derby!
Um massacre no Stadium Palestra Itália!

Naquela histórica tarde dominical, os jogadores Nascimento, Carnera e Junqueira; Tunga, Dula e Tuffy; Avelino, Gabardo, Romeu Pellicciari, Lara e Luiz Imparato, perpetuaram seus nomes aplicando um sonoro, um eterno 8 a 0 no Corinthians, válido tanto para o Campeonato Paulista quanto para o Torneio Rio-SP.


Este jogo merece até uma breve descrição, feita através do jornal Folha da Manhã de 06/11/1933:


“Bem numerosa foi a assistência que compareceu ontem à tarde no estádio do Parque Antarctica, embora o tempo se mostrasse ameaçador, afim de presenciar o já tradicional encontro entre o E.C. Corinthians Paulista e o Palestra Itália, em disputa do Campeonato de Profissionais... Desde os primeiros minutos, a superioridade do Palestra se fez notar. Os primeiros 17 minutos de jogo passaram-se sem que a contagem fosse aberta, mas entanto, os dianteiros alviverdes já assediavam com insistência o posto de Onça, cuja queda se esboçava iminente. 

Os comentários que se faziam ouvir eram mais ou menos nestes termos: “quando o Palestra marcar o primeiro tento vai ser aquele desastre...  O Corinthians já está sendo dominado e depois então...”. De fato, foi o que se deu. Até os 17 minutos de  jogo, os locais não conseguiram marcar nenhum ponto. A essa hora, mais ou menos, conseguiram o primeiro (com Romeu) e, pouco depois, os dois outros da primeira fase (ambos também de Romeu).  O segundo tempo, então, foi prodigo em pontos. Nada menos de cinco foram  marcados (um de Gabardo, mais um de Romeu e três de Imparato) e, assim, o Palestra aumentou para oito a sua contagem...”.

Ainda segundo relatos de jornais da época, a goleada só não foi maior porque o goleiro Onça praticou ao menos duas grandes defesas durante o jogo. Dá para imaginar o tamanho da festa que a torcida palestrina fez nos arredores do estádio?
Já para o Corinthians, as consequências da goleada sofrida foram desastrosas. Na noite seguinte, mais de 500 torcedores (e sócios) reuniram-se em frente à sede do clube, na época situada na Rua José Bonifácio, exigindo a demissão de toda a diretoria, o que de fato aconteceu.
Houve tentativa de invasão e apedrejamento e a polícia teve muito trabalho para dispersar os corinthianos.
Sem dúvida, aquela foi a maior humilhação na história do Corinthians.

O atacante Romeu Pellicciari, autor de metade dos gols, vivia seu maior momento de glória.
E o Palestra Itália vivia um verdadeiro êxtase de campeão. Em dois jogos, num único ano, o Verdão marcou exatos 13 gols no Corinthians, um feito histórico e inédito.





          







O domingo amanheceu diferente. Meu avô, em visível sobressalto, estava alegre demais, muito mais do que costumava nos domingos ensolarados da velha Lapa.

Eu então nem se fala, estava radiante, alegre, mais alegre do que quando meu pai levou-me tomar sorvete na Sorveteria Nevada no Vale do Anhangabaú.

Pudera! Meu avô, meu pai e eu iríamos ao Stadium Palestra Itália no Parque Antártica ver o Palestra jogar.

Nem eu sabia direito porque, mas algo dizia que aquele 5 de novembro de 1933 nunca mais seria esquecido. O Palestra jogaria contra o Corinthians a quem havia goleado, não fazia muito tempo, por 5 x 1 no campo deles, na Fazendinha.

Às 13 horas pegamos o bonde na rua Guaicurus, o famoso 35, descemos na Avenida Água Branca então empoeirada e fomos para a frente do estádio. Já era bonito o Palestra, e mais do que tudo como dizia meu avô. Era nosso! Pago com nosso dinheiro. Só dinheiro palestrino.

Compramos há mais de 10 anos, mas terminamos de pagar a conta havia pouco tempo. Enfim tudo aquilo era nosso.

Os bondes despejavam centenas de pessoas. Os jornais da época, pasmos com essa situação, bradavam. "Onde pensam que vão estes operários italianos, o que eles querem, nos seus dias de folga, lotando os bondes para ver o Palestra jogar. O que eles vão querer depois?".

Eles veriam mais tarde que queríamos o mundo.

O jogo começou e no primeiro tempo o Palestra fez três gols. 3x0 os três gols do Romeu Pellicciari.

Meu pai assistia ao jogo calado, não acreditava no que estava vendo, meu avô exultava. Comprou, para mim, de uma só vez: Sissi, Gasosa e Guaraná, o pai e o nonno tomavam Faixa Azul e todos comíamos pizzas, que eram vendidas em pequenos tambores.

Começou o segundo tempo com menos de um minuto Gabardo fez o quarto gol, foi só pizza que voou. Romeu aos 7, Imparato aos 9, fizeram mais dois gols; imaginem que aos nove minutos já estava 6x0. Ninguém se entendia mais, todo mundo gritava e se abraçava.

O jogo ainda não tinha acabado, havia tempo para que Imparato ainda fizesse mais dois gols.

Oito a zero. Inacreditável o Palestra, de todos nós, enfiava 8x0 no Corinthians.

Terminou o jogo, a festa era geral, ao invés de voltar para a Lapa meu avô ordenou; todos para a Patriarca e lá fomos de bonde para a sede do Palestra.

O ritual no bonde era delirantemente monocórdico: oito! oito! oito! oito! oito!
lembro de uma menina, acho que tinha a minha idade, que acompanhava o canto com todo amor que ela dava ao Palestra; usava um vestido verde e branco e na única oportunidade em que se podia ouvir alguma coisa, perguntei-lhe o nome. Eddy disse-me a menina.

Chegamos a Patriarca a massa delirava:

A nossa turma é boa
é da Patriarca
arca! arca! arca!
Palestra! Palestra!

Voltamos para casa, já era noite. A mãe e a nonna nos esperavam com pizza, os vizinhos vinham nos cumprimentar invejosos, afinal nós estivemos lá.

75 anos esta tarde! Eu estava lá... meninos eu vi.

Onde vocês estiverem: Gabardo, Romeu, Avelino, Imparato, Nascimento, Junqueira, Carnera, Tunga, Dula e Tufi e Lara; o meu, o nosso eterno agradecimento.

Oggi si mangia pizza e prendere alcuni bicchieri di vino

A festa foi grande, o vô abriu um Chianti e que minha mãe não saiba, mas uma certa hora ele colocou um pouco do vinho na minha gasosa. Aquela noite merecia, aquela noite choveu prata.


texto de Jota Christianini, de 2008






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