26.10.12

Mané Garrincha, o gênio das pernas tortas



A história de Garrincha serve para nos mostrar, principalmente, o quanto a vida é incerta e imprevisível; que a fama e o glamour podem levar a rumos completamente ignorados, caminhos que em momentos de glória, jamais se ousa imaginar. No caso de Garrincha, virtudes tão nobres como a humildade e a simplicidade, aliadas à sua ingenuidade, talvez tenham sido (além do álcool), as responsáveis por sua decadência.
Manoel Francisco dos Santos, o craque de pernas tortas (empenadas para a direita), nasceu em 28 de outubro de 1.933, na cidade de Pau Grande, a 50 quilômetros do Rio de Janeiro.
Garoto simples e alegre, Mané passou a infância brincando, aprontando e fazendo aquilo que o consagraria anos mais tarde: jogando futebol. Também adorava caçar passarinhos, aliás, o apelido Garrincha (nome de um tipo de ave) ele ganhou nessa época, de amigos, nas redondezas onde morava.
Mas, caçador de passarinhos não podia ser o futuro reservado para Garrincha, afinal ele era um gênio com a bola nos pés.
A primeira grande chance foi quando o famoso lateral-esquerdo Nilton Santos, do Botafogo (RJ), o viu jogar num time rival: “Quando vi aquele cara torto na ponta-direita, não dei um centavo por ele. Na primeira bola que recebeu, porém, me deu um drible entre as pernas e fez o gol. Aí me disseram que era um tal de Mané Garrincha.”, conta.
Foi Nilton Santos que recomendou à diretoria do Botafogo a contratação de Garrincha; sem dúvida  uma das maiores contratações do time, já que em bem pouco tempo lá estava ele com a camisa 7 e suas hábeis pernas tortas, dando ao Botafogo muitas alegrias.
Mas, naqueles anos dourados do futebol, o talento de Garrincha não poderia ficar restrito a um clube estadual, e nem seria justo.
E lá foi ele, no auge de seus 25 anos de idade, defender o Brasil na Copa do Mundo de 1.958, sediada na Suécia. Apesar da televisão não ser tão comum naquela época, o futebol já era uma mania nacional e, na sintonia dos aparelhos de rádio, dá para imaginar a grande emoção e a euforia que tomaram conta do país. Ao lado de craques como Pelé, o próprio Nilton Santos, Didi, Vavá, Zagallo, entre outros, Mané Garrincha fez a nação enlouquecer com seus dribles incríveis, ajudando a dar à seleção brasileira o primeiro título mundial. Na final o Brasil venceu a Suécia por 5 x 2.
Quatro anos depois, na Copa do Mundo de 1.962, sediada no Chile, a agilidade e a versatilidade de Garrincha estariam mais acentuadas ainda. Pelé se machucou no início do campeonato, ficando fora de várias partidas até a final, dando a Garrincha responsabilidade dobrada. E ele deu conta do recado com um verdadeiro espetáculo de bola, deixando milhares de pessoas boquiabertas com suas jogadas. Não podia ser de outro jeito: o Brasil se tornou bicampeão vencendo a Tchecoslováquia por 3 x 1.
Porém, na Copa de 66, sediada na Inglaterra, a última disputada por Garrincha, ele já não parecia estar tão bem fisicamente; a seleção brasileira acabou sendo derrotada nas oitavas de final (a própria Inglaterra foi campeã naquela Copa).
Alguns problemas físicos foram diminuindo o ritmo de seu futebol e naquele mesmo ano (1.966) fora dispensado pelo Botafogo. Em seguida passou por outros times (entre eles Corinthians e Flamengo) mas deixava as diretorias a desejar, sendo também dispensado por todos.
Em pouco tempo, Garrincha se entregou completamente ao alcoolismo e a partir de 1.973 (já alcoólatra), passou a depender de doações e da caridade alheia. Quase tudo que havia conquistado financeiramente acabou perdendo em conseqüência do vício, na boemia.
Em três de seus muitos casos de amor – o casamento de mais de 10 anos com Nair, a primeira esposa; a amante Iraci; a cantora Elza Soares e Vanderlea, a última mulher – Garrincha foi pai de 13 filhos (sendo 10 do sexo feminino).
Sobre sua personalidade pacata e carismática, mesmo quando estava embriagado, Vanderlea conta que “ele só queria saber de conhaque Dreher; chegava a cair na rua, mas continuava sendo um doce de pessoa.”.
Mané Garrincha morreu no dia 20 de janeiro de 1.983, aos 49 anos, numa clínica do Rio de Janeiro, vítima de cirrose hepática provocada pelo consumo excessivo do álcool.
Por muito pouco, um dos maiores craques do futebol brasileiro não foi enterrado como indigente!

Renato Curse                             janeiro de 2.001


* Texto publicado na edição # 13 do Informativo Mix Cultural, de 03 de fevereiro de 2.001







Nenhum comentário:

Postar um comentário